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Reflexões sobre o momento da Morte

Imagem do Por do Sol

Natura Non Facit Saltus!

Nossa cultura associa à morte a ideia de luto, de perda, de separação final daquilo que amamos. Pelo terror que estas associações incutem em nós desde a infância, evitamos falar dela, pensar nela e até mesmo levamos nossa vida cotidiana como se ela fosse algo que só chega para os outros. Consequentemente, chegamos despreparados à ela.

Mas, como nos ensina o Espiritismo, a morte é apenas a transição[1] natural de um estado da vida para outro, a qual todos nós encarnados estamos sujeitos. Assim, em vez de evitarmos pensar nela, a melhor alternativa seria nos prepararmos durante a vida para que – quando chegar a hora da desencarnação – ela ocorra nas melhores condições possíveis.

Observando o que a literatura espírita nos diz a respeito, há dois aspectos na questão, um é a situação do Espírito no plano espiritual após o término da transição, que está diretamente ligada ao seu desenvolvimento moral. Um homem de bem não tem o que temer da morte, ao passo que um altamente comprometido com as leis divinas tem bons motivos para se preocupar. A situação de ambos será bastante diferente no além-túmulo.

O outro aspecto é o que ocorrerá durante a transição em si mesma, a situação do indivíduo enquanto acontece o desligamento dos laços com a matéria e o estado de perturbação temporário[2] que se segue nos primeiros momentos da vida espiritual.

Quais são as condições que determinam esta perturbação, além do gênero de morte[3]? O modo de vida é uma delas, principalmente o grau de apego à matéria e a vivência de princípios morais. Quanto mais ligada foi a vida do indivíduo aos prazeres e sensações materiais e menos afeita a prática do bem, mais difícil, doloroso e prolongado será o desligamento dos laços com o corpo físico[4].

Mas, há outras condições também, pelas comunicações espíritas se constata que mesmo pessoas de bem, inclusive com sólidos conhecimentos sobre a vida espiritual[5], estão sujeitas a passar por um período de atrapalhação mental, mais ou menos prolongado, mas sem o sofrimento característico das consciências presas ao remorso e a culpa.

A pista está na comparação com a situação do espírito no sono. O sono é um processo que tem analogias com o da morte, é um afrouxamento dos laços que ligam o espírito ao corpo físico enquanto que a morte é o desligamento completo desses laços[6]. No primeiro há um desdobramento, na segunda há a desencarnação. Pois bem, se ao deitarmos, estivermos com a mente sobrecarregada de preocupações, com fortes emoções negativas como a raiva, ou extremamente apegados a alguma ocorrência em particular, não importa o quanto tenhamos aprendido da vida espiritual, vamos passar uma noite conturbada, possivelmente com pesadelos e pouco afastados do corpo físico.

Considere-se portanto o que a nossa situação mental e emocional, no momento da morte, pode provocar durante a transição entre os dois planos da vida![7] Na desencarnação o espírito passa do estado em que seu pensamento é tolhido pelos liames da matéria para o que está livre, amplificando e reverberando as condições mentais em que se encontra. É o que se constata nas sessões de atendimento aos espíritos sofredores. Quando estes narram seus últimos momentos, fica evidente que a perturbação que se segue à morte na realidade é a continuidade da que já estava presente no momento em que esta ocorreu.

Nos casos extremos, como o suicídio e a morte por drogas, é mais evidente ainda esta relação. A indisciplina mental que levou ao comportamento desequilibrado não se extingue com a morte e, somada aos danos provocados na estrutura do corpo espiritual e a surpresa com a nova situação[8], gera um longo período de sofrimentos. Consulte-se o testemunho de Camilo Castelo Branco[9], no livro “Memórias de um Suicida“, pela médium Yvonne A. Pereira. A natureza não dá saltos…

A conclusão é que necessitamos desenvolver o hábito do equilíbrio espiritual durante a vida, para que ele esteja presente no momento da desencarnação. Vivência no bem é imprescindível, seguida de uma atitude mental serena, emoções controladas e fé no porvir. Orai e vigiai, como nos aconselhou Jesus!

Muita Paz,

Carlos A. I. Bernardo

Observações

[1] “A alma se desprende gradualmente e não escapa como um pássaro cativo a que se restituiu subitamente a liberdade. Aqueles dois estados se tocam e se confundem, de modo que o Espírito se desprende pouco a pouco dos laços que o prendiam: eles se desatam, não se quebram.” – O Livro dos Espíritos – trecho da resposta à pergunta 155-a.

[2] “Deixando o corpo, a alma tem imediatamente consciência de si mesma? Consciência imediata não é bem o termo; ela fica algum tempo em estado de perturbação.” O Livro dos Espíritos – pergunta 163.

[3] Dependendo do gênero de morte, o indivíduo tem tempo para acostumar-se com a ideia de que vai deixar este mundo e preparar-se para isso, como ocorre, por exemplo, nos casos de doenças fatais diagnosticadas com grande antecedência. Em outros, como nas desencarnações em decorrência de moléstias prolongadas ou em idade muito avançada, há um enfraquecimento gradativo do corpo físico que facilita o desligamento final. Já em mortes acidentais ou provocadas a situação é muito diferente, porque o desligamento se dá em condições onde os laços com o corpo físico estão em seu pleno vigor. Por isso Kardec observou, ao final das questões referentes a perturbação espiritual (O Livro dos Espíritos – perguntas 163 à 165), que a perturbação apresenta circunstâncias particulares, de acordo com os caracteres dos indíviduos e, principalmente com o gênero de morte. Vide também a observação [7]

[4] “[..] naqueles cuja vida foi toda material e sensual, o desprendimento é muito menos rápido, durando algumas vezes dias, semanas e até meses, o que não implica a existência, no corpo, da menor vitalidade, nem a possibilidade de um retorno à vida, mas simples afinidade entre o corpo e o Espírito, afinidade que sempre guarda relação direta com a preponderância que, durante a vida, o Espírito deu a matéria. De fato, é racional conceber-se que, quanto mais o Espírito se tenha identificado com a matéria, tanto mais penoso lhe seja separar-se dela, ao passo que a atividade intelectual e moral e a elevação dos pensamentos operam um começo de desprendimento, mesmo durante a vida do corpo; assim, quando chega a morte, o desprendimento é quase instantâneo.”  – O Livro dos Espíritos, comentários de Kardec à pergunta 155-a.

[5] “O conhecimento do Espiritismo exerce alguma influência sobre a duração, mais ou menos longa, da perturbação? Influência muito grande, visto que o Espírito já compreendia de antemão a sua situação. Mas a prática do bem e a consciência pura exercem maior influência.” – O Livro dos Espíritos, pergunta 165. (Há um erro no texto desta pergunta na edição comemorativa da FEB, que usei nas citações deste artigo, aparece confiança em vez de consciência, que é o que está na edição francesa).

[6] “O sono liberta parcialmente a alma do corpo. Quando dorme, o homem se acha momentaneamente no estado em que ficará de forma definitiva após a morte.” – O Livro dos Espíritos, trecho da resposta à pergunta 462.

[7] Recentemente tive a oportunidade de acompanhar a comunicação de um antigo colaborador do centro em que estava, muito estimado por todos e atualmente um dos guias espirituais da casa, onde ele comentou sobre a sua desencarnação e o longo período de perturbação que passou, motivado, conforme explicou, pelas fortes emoções que o dominaram ao perceber que estava desencarnando.

[8] “Nas mortes violentas, por suicídio, acidente, apoplexia, ferimentos, etc., o Espírito fica surpreendido, espantado, não acredita que esteja morto e sustenta esta ideia com obstinação. No entanto, vê seu próprio corpo, sabe que esse corpo é seu, mas não compreende que se ache separado dele; acerca-se das pessoas a quem estima, fala-lhes e não entende porque elas não o ouvem. Esta ilusão dura até o completo desprendimento do perispírito. Só então o Espírito se reconhece e compreende que já não faz parte do número dos vivos.” – O Livro dos Espíritos, comentários de Kardec ao final das questões 163 à 165 sobre  “perturbação espiritual” (Retorno da Vida Corporal à Vida Espiritual).

[9] A médium Yvonne A. Pereira explica,  na introdução do livro “Memórias de um Suicida”, que utilizou “Camilo Cândido Botelho” em vez do nome verdadeiro do autor espiritual, identificado posteriormente como sendo o escritor português Camilo Castelo Branco.

Bibliografia

Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Edição comemorativa dos 150 anos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006.

_. Le Livre des Esprits. 150 Ans Édition Commemorative. Brasilia: Conselho Espírita Internacional, 2007.

Pereira, Yvonne A. Memórias de um Suicida. Pelo espírito Camilo Cândido Botelho. 7 ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2009.

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