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Religião, Cristianismo e os significados das palavras

Detalhe de foto mostrando uma caneta escrevendo palavras em um caderno

As palavras na comunicação das ideias.[1]

“A língua é um veículo de comunicação, e a fala é o uso desse veículo por um dado indivíduo numa ocasião dada. (…) O significado completo e o tom de certas palavras só podem ser captados se os colocarmos de novo no contexto cultural do período: O rex latino não é um equivalente exato do king inglês ou do roi francês; a partir da queda da monarquia, nos primeiros tempos da história romana, adquiriu um matiz odioso e tornou-se o símbolo da tirania“. Semântica, Stephen Ullman, Fundação Calouste Gulbenkian.

As palavras nos importam pouco. A linguagem deve ser formulada de maneira a se tornar compreensível. As dissensões humanas surgem porque sempre há desentendimentos sobre as palavras, pois a linguagem humana é incompleta para as coisas que não lhes ferem os sentidos“. Resposta dos Espíritos a questão 28 do Livro dos Espíritos, Cáp. II – Elementos Gerais do Universo.

Sem entrarmos detalhadamente na teoria da comunicação, toda transmissão de informação envolve três elementos: A fonte da informação, o meio de transmissão e o receptor.

Para que a transmissão seja efetiva, há necessidade de que a informação seja codificada em uma forma de sinal que possa veicular pelo meio de transmissão. A fonte e o receptor devem utilizar a mesma codificação, para que seja possível a decodificação.

Na troca de informações entre seres humanos, a linguagem é essencialmente uma forma de codificação da informação, e os significados das palavras são o código compartilhado.

Na maior parte das vezes, concordamos com o significado das palavras, porque crescemos em grupos sociais onde elas são usadas sempre com os mesmos significados pelos que os compõe. Outras vezes, concordamos nos significados, porque passamos por processos educativos em que aprendemos a usar as palavras de determinados campos profissionais nas situações em que se aplicam.

Assim quando “comunicamos” alguma informação, “vestindo” nosso pensamento com um conjunto de palavras, selecionamos as que, conforme a nossa experiência e formação cultural, correspondem ao que queremos transmitir.

Inconscientemente selecionamos as que achamos mais adequadas, não só ao assunto, como também ao nosso “interlocutor” e ao contexto em que a comunicação ocorre. Quanto maior a “concordância” no significado do código, maior é a compreensão, maior a transmissão fiel das informações.

Nossa capacidade de codificar um pensamento em palavras, não só é proporcional ao nosso domínio da língua, como também da nossa capacidade de pensar com clareza. Não é possível codificar corretamente um pensamento vago, do qual nem o próprio autor sabe discernir claramente do que está falando.

Algumas ideias são mais fáceis de codificar, não há muita ambiguidade quando se fala de substantivos concretos como “água”, “pedra” ou “fogo”, experiências sensoriais diretas. Por outro lado, para se falar de conceitos abstratos como “amor”, “amizade”, “beleza”, “perfeição” e outros semelhantes, pode ser extremamente difícil colocar em palavras o que se tem na mente.

Neste processo, em que muitas das informações para decodificação ficam subentendidas, é de suma importância o contexto em que a informação é transmitida. Até hoje, as pesquisas na área de informática para interpretação automática de textos e fala, esbarram nessa dificuldade.

Curiosamente, nós normalmente não nos apercebemos deste aspecto da comunicação e julgamos que nossa fala é precisamente o reflexo de nossas ideias e que será decodificada pelo nosso interlocutor com a maior eficiência. Não nos apercebemos que muitas vezes pensamos uma coisa, dizemos outra e nosso interlocutor entende ainda outra diferente.

Na prática, no dia-a-dia, as diferenças são tão pequenas que não chegam a constituir maiores empecilhos. A questão assume outras proporções quando, do jogo de palavras, dependem eventos maiores que somente as nossas ocupações corriqueiras.

Nos grandes debates filosóficos e religiosos, a compreensão correta do que está se comunicando, é condição básica para que se chegue a um resultado frutífero.

O que é religião?

Um exemplo da imprecisão da linguagem humana é a palavra “religião”[2].

Quando estamos discutindo sobre religião com outra pessoa, será que estamos discutindo a mesma ideia de “religião”?

Há os que associam à palavra “religião” a todo o histórico de mal uso dos poderes religiosos e se insurgem quanto a simples possibilidade de suas ideias serem interpretadas como “religião”, enquanto que outros usam esta palavra para descrever a ligação do homem com Deus e com a criação. Ligação que nada tem de sobrenatural, outra palavra com muito a discutir[3].

Para uns, não ter “religião” significa ser “livre pensador”, não estar ligado a um culto organizado especifico. Para outros, significa ser ateu, não crer em nada.

Os intermináveis debates, entre os que veem o Espiritismo como religião e os que não aceitam esta designação, estão na categoria dos originados por falta de compreensão mútua.

O que é “Cristianismo”[4]?

Pelos dicionários, o Cristianismo é o conjunto das religiões baseadas nos ensinamentos e na vida de Jesus. Uma outra definição, utilizada por algumas dessas religiões, é que o Cristianismo é a crença em Jesus como o Cristo, filho único de Deus, Salvador e Senhor. Há também definições que incluem a crença na Trindade, formada pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo.

A palavra foi incorporando estes significados ao longo da história, a medida que formulações teológicas foram sendo agregadas as crenças cristãs.

É por essas diferenças de interpretação que, por vezes, alguns religiosos argumentam que o Espiritismo não se inclui entre as doutrinas cristãs. Consideram para o Cristianismo apenas as definições que incluem posições teológicas não aceitas pelo Espiritismo. Os espíritas, por outro lado, consideram que os ensinamentos de Jesus são a base moral da Doutrina e assim a colocam naturalmente dentro do campo do Cristianismo.

A letra mata, mas o espírito vivifica

A “letra mata, mas o espírito vivifica” (Paulo – 2 Coríntios 3:6), muita tinta e muito sangue já correram na história por causa de palavras mal interpretadas.

Muita Paz,

Carlos A. I. Bernardo

Notas

1 – Publicado originalmente no Boletim GEAE Número 404 de 14 de Outubro de 2000. Reformatado para publicação no Blog.

2 – “Religião: 1 – Crença na existência de força ou forças sobrenaturais; 2 – Manifestação de tal crença pela doutrina e ritual próprio; 3 – devoção”. Mini Dicionário Aurélio – editora Nova Fronteira – 2.a edição

3 – “Sobrenatural: 1 – Não atribuído à natureza; 2 – Relacionado com fenômenos extra terrenos; 3 – Sobre humano”.  Mini Dicionário Aurélio – editora Nova Fronteira – 2.a edição

4 – “Cristianismo: O conjunto das religiões cristãs, i.e., baseadas nos ensinamentos, pessoa e vida de Jesus Cristo”. Mini Dicionário Aurélio – editora Nova Fronteira – 2.a edição

Bibliografia

Mini Dicionário Aurélio – editora Nova Fronteira – 2.a edição.

O Livro dos Espíritas, Allan Kardec, Coleção da Obras Completas de Allan Kardec publicada pela EDICEL.

Semântica, Stephen Ullman, Fundação Calouste Gulbenkian.

Imagem

Writing: Banco de Imagens pixabay.com

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