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Totó Entre Vidas

Foto mostrando três cachorrinhos

Um Conto Espírita (II)

O valente mastim encontra-se amedrontado e perdido, embora muito inteligente, suas limitações naturais de alma ainda jovem nas trilhas da evolução, não lhe possibilitavam compreender toda a extensão do que ocorrera. Não percebia que não estava mais ligado a um corpo físico e continuava buscando refúgio em seu antigo canil, ao lado da casa de fazenda, que seu dono o treinará para guardar com toda a ferocidade possível.

Sentia dor profunda, não pelos ferimentos que pareciam ter sumido, mas pela sua incapacidade de compreender porque seu dono, a quem devotava extrema afeição e fidelidade, o tinha impiedosamente tratado e apontado para ele sua arma de caça. Não atinava, em sua inocência canina, que a rudeza de seu dono fora cobertura para nefasto crime no qual ele, seu fiel mastim, fora usado como disfarce.

A percepção do tempo lhe escapava, assim, não conseguia se orientar, se tudo ocorrera naquele momento ou muito atrás.

Estava encolhido em seu canto, quando vê se aproximar um homem de intensa luminosidade. O mastim empertigou-se, amedrontado, se defenderia contra novos maus tratos, mas tocado pela luminosidade, se sentiu alvo de imensa ternura. Não havia hostilidade no homem e acanhadamente o mastim deixou-se ser conduzido por ele.

Nova vida se abriu para o nobre animal, tornou-se parte de uma matilha que seguia aqueles seres luminosos por vales sombrios e os ajudava a resgatar homens e mulheres em condições de extrema penúria espiritual. A matilha ia com a benemérita caravana em suas excursões socorristas e lhe dava escolta contra os perigos das regiões mais sombrias do plano espiritual.

Não poucas vezes o valente mastim afastou seres de aparência horrorosa que tentavam impedir que algum pobre espírito fosse recolhido. Não atacava ninguém, pois compreendia que outra era sua missão, apenas usava sua imponente presença para estabelecer a ordem.

Sua valentia, sua natural predisposição para servir e a inteligência que se lhe desenvolvia cada vez mais, granjearam-lhe o respeito de socorristas e socorridos. Muitos que passaram pela experiência de serem salvos com sua ajuda, o visitavam com frequência e traziam-lhe mimos de afeto que lhe refrescavam as dores profundas que insistiam em atormentar seu coração.

Nos momentos de descanso, em que se recolhia no canil, junto a instituição espiritual a que pertencia sua matilha, sonhava com seu antigo dono, revia o momento derradeiro em que se encontraram, ele com a arma que lhe apontava ameaçadoramente. Não era raiva que sentia nestes sonhos, muito menos ódio, era um sentimento profundo de dor, de incompreensão, de saudade do afeto do dono, a quem ainda se ligava por profunda devoção.

Seguia assim o curso de sua existência espiritual, espírito animal no intervalo entre existências, quando seu novo dono, o espírito que o resgatara no canil da fazenda, vem busca-lo.

É conduzido a um recinto onde se encontram vários outros espíritos em solene reunião, conhece a quase todos, menos a um menino que se aproxima dele. Fato que o assusta muito, a medida que o menino se aproxima, modifica-se e toma a forma do ancião que havia atacado ao toma-lo por invasor da fazenda de seu antigo dono.

São as palavras que o ancião pronuncia que o acalmam, não atina com o significado, mas o afeto com que são ditas o conquista. O ancião lhe diz:

“Não tema meu amigo, sei que não tivestes culpa no incidente que nos tirou a vida de ambos. Eu e teu antigo dono tínhamos compromissos mútuos muito antigos. Eu lhe devia orientação para sanar a ganância extrema que lhe incuti em outras existências. Ele devia me amparar na velhice e aproveitar de minha experiência para reajustar seus rumos. Mas, ele deixou-se iludir novamente pela sede de bens terrestres e trilhou o caminho mais difícil.

Sabe agora que errou e esforça-se para melhorar, mas em condições muito mais dolorosas do que seriam necessárias sem o erro cometido.

Ele precisa de nós para finalmente sair do poço de culpa em que se lançou e te venho buscar para me ajudar na tarefa. Vamos libertá-lo e ele nos libertará por sua vez, para que possamos os três seguir adiante.

Você me guiará no novo encontro com ele e nós seremos todos grandes amigos pelo futuro afora.”

O bem estar imenso que se apoderou do mastim, a suavidade com que estas palavras, que não compreendia, penetravam em seu coração, o colocaram em sono profundo, do qual só veio a despertar em novas roupagens terrenas.

Renovado e cheio de energia, o antigo mastim, agora Totó, um adorável filhote, brincava alegremente com seus irmãos de ninhada, quando correndo para pegar uma bolinha, encontrou-se de frente com João, que estava escolhendo o cachorrinho que seus pais lhe prometeram.

Foi uma ligação à primeira vista, João não largou mais o cãozinho e o cãozinho não o largou mais. O pais e os donos da ninhada, comentavam sempre que se encontravam, que aquilo era um caso extraordinário, parecia destino.

Muita Paz,

Carlos A. I. Bernardo

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Imagem: banco de imagens pixabay.com

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