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Um Conto Espírita

Foto de um cão tentando atravessar uma cerca de madeira

O Incidente

A comunidade estava transtornada, pequeno bairro rural, formado em sua maioria por casas e chácaras de famílias antigas na região, jamais havia visto caso igual. Nas ruas e comércio só se falava na tragédia, o pavor insuflado pelas notícias de eventos semelhantes em grandes centros urbanos.

Pedro, um garoto na casa dos seus 10 anos, havia desaparecido há dois dias, sem vestígio. A polícia acionada, desdobrava-se em buscas de pistas que levassem à criança. Aos poucos, iniciando-se em conversa de bares, aumentavam os rancores contra pobre desequilibrado mental que vagava rotineiramente pelas redondezas.

O delegado, evitando o pior e por suspeitas fundadas de pequenos delitos cometidos pelo indivíduo em questão, o deteve para averiguações. Porém as perspectivas tornavam-se cada vez mais sombrias para o suspeito. A imaginação popular já desenhava quadros terríveis e os associava a cada comportamento estranho do pobre desequilibrado.

Totó em Ação

Estava neste pé a situação, podendo a qualquer momento piorar em vista dos animos exaltados, quando João, outro garoto do bairro, brincando com seu cachorro Totó, jogou um graveto para dentro de um dos muitos terrenos baldios da região, o cachorro entrou, mas, não retornou.

Preocupado, João entrou também no terreno e encontrou Totó agitado em torno de algumas tábuas velhas. João viu que as tábuas estavam rompidas e, abaixo delas, se ocultava um poço pouco profundo.

As pessoas já em estado de grande tensão, quase tiveram um ataque, quando João correu pela rua principal aos gritos de socorro! Totó havia encontrado Pedro desacordado ao fundo de um poço.

Milagrosamente Pedro foi salvo sem um arranhão sequer, apenas muito fraco. O desequilibrado, cuja família foi encontrada pela polícia, foi conduzido à tratamento e Totó virou o herói do bairro, passando até a dar nome à rua onde o terreno em questão se encontrava. O poço anteriormente desconhecido, aparentemente o último resto de uma antiga e esquecida casa de fazenda, foi devidamente cercado e sinalizado.

A Narrativa de Pedro

Poucos porém prestaram atenção na estranha narração de Pedro. Dizia ele que brincava no terreno, quando sentiu afundar o solo onde pisava e, a partir daí, viu-se no meio de prolongada alucinação.

Enxergava-se na condição de adulto, parente distante e único de Nhô Bento, rico proprietário de terras. Já avançado na idade, Nhó Bento tocava sozinho seus negócios, mas sem a mesma perspicácia de antes. Pedro viu-se em intricadas e escusas negociações com o advogado de seu abastado parente, negociações que colocaram a fortuna sobre sua tutela.

Pedro sentia-se ganancioso, não bastava a tutela, queria a posse. Assim, em uma noite mais escura, induziu Nhó Bento afastar-se do recinto doméstico e soltou feroz mastim que treinará para matar qualquer invasor da propriedade. A morte de Nhô Bento foi tomada a conta de acidente, o cão malvado sacrificado e a passagem da fortuna feita.

Viu-se Pedro vivendo longos anos mais, nos quais, teve a oportunidade de arrepender-se, sofrer muito com a consciência pesada. Viu-se tornar-se filantropo, buscando alívio através do bem ao próximo.

A alucinação começou a desvanecer ao surgir um cachorro e uma criança a beira do buraco onde agora se reconhecia. Era o mastim que treinará para matar, que agora se transfigurava em Totó e conduzindo-o estava Nhó Bento, agora transformado em João. Pedro, ainda como que incorporado na sua situação de adulto comprometido com a lei divina, sentiu-se perdoado pelos dois.

Causa e Efeito

O estranho estado de alucinação só passou efetivamente, devolvendo-lhe a sua situação normal de raciocínio infantil, quando, saindo do hospital onde fora internado após o salvamento, viu o desequilibrado mental do bairro, que saia da delegacia ao lado e entrava na viatura que o conduziria, sob tutela  de seus parentes, ao tratamento.  Apesar de sua fisionomia diferente e aparência bastante estropiada, sem saber como isso era possível, reconheceu o advogado com o qual se viu em sombrias tratativas e que recebeu régia remuneração para distorcer os fatos e conseguir que Nhô Bento fosse declarado incapaz.

Apenas um senhor que morava no bairro, e que conhecia algo do Espiritismo,  ouvindo repetir a estranha história que o garoto contou,  percebeu do que se tratava. Era a lei de causa e efeito agindo através das circunstâncias e colocando novamente próximos os atores de um drama passado. Culpa, resgate e perdão entrelaçados no destino das criaturas, devido aos seus próprios atos.

Muita Paz,

Carlos A. I. Bernardo

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Imagem: Dog (banco de imagens: pixabay.com)

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