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O Espiritualismo Moderno

Imagem de um Girassol, simbolo do Espiritualismo Moderno

Um movimento pouco conhecido no Brasil.

Quando o Espiritismo começou a conquistar maior expressão no Brasil, a partir dos anos 30 do século passado, o movimento espírita estava entrando em declínio na Europa, por efeito da guerra e dos movimentos totalitários que iniciavam sua fase de domínio no velho continente.

E, justamente, o velho continente era a ponte entre o Espiritualismo Moderno e o Espiritismo. Rompida esta ponte, começou um distanciamento que ainda perdura.

Os pioneiros do movimento espírita estavam em contato com os espiritualistas dos países de língua inglesa, mutuamente não se viam como movimentos separados, no máximo, divergiam em algumas questões.

D. D. Holme, um dos médiuns de maior celebridade do Espiritualismo Moderno. Domínio público. Fonte: Wikipedia Commons

A Revista Espírita, dirigida por Allan Kardec de 1858 a 1869 é testemunho desta proximidade. Há comentários sobre notícias e artigos de periódicos espiritualistas. Os principais acontecimento do Espiritualismo Moderno foram acompanhados de perto por Allan Kardec.

Veja-se, por exemplo, os artigos e citações sobre um dos médiuns espiritualistas mais célebres da época, o escocês Daniel D. Holme (1833-1886).

O mesmo se passou no período imediatamente posterior ao da Codificação Espírita. As obras deste período, de Leon Denis, Ernesto Bozzano, Gabriel Delanne e outros, citam pesquisadores, autores e médiuns espiritualistas.

Os primeiros congressos espíritas tiveram a participação de espiritualistas eminentes, como Sir Conan Doyle (1859-1930), médico e escritor, criador do personagem Sherlock Holmes e autor de uma obra fundamental sobre a história do Espiritualismo Moderno.

Diferenças entre o Espiritualismo Moderno e o Espiritismo

Até a década de 1930 as diferenças eram poucas. A primeira e talvez a decisiva para o distanciamento posterior, eram as designações diferentes que o movimento tomou.

Nas línguas latinas as palavras “espiritualista” e “espiritual” tinham usos ligeiramente diferentes de “spiritualist” e “spiritual”, não servindo para distinguir os que acreditavam nas manifestações dos espíritos dos que acreditavam apenas na existência de algo além da matéria. Daí a necessidade dos neologismos espírita e espiritismo.

A segunda maior diferença era o enfoque. No período mencionado, o Espiritualismo Moderno dava muita ênfase as manifestações físicas e as experimentações com os médiuns. O Espiritismo, desde o início se voltou para as manifestações inteligentes e as suas consequências filosóficas e morais, estruturando-se em torno da obra de Allan Kardec.

Allan KardecComo consequência dos enfoques diferentes, o Espiritualismo Moderno demorou um pouco mais para chegar a um consenso sobre seu conjunto de princípios básicos e a obra de Allan Kardec teve pouca repercussão nos países de língua inglesa.

Uma terceira diferença, que também contribuiu para que a obra de Allan Kardec não tivesse a mesma repercussão entre os espiritualistas, é que a aceitação da ideia da reencarnação foi gradual. Não fez parte dos seus princípios básicos e, ainda hoje, apesar de bastante difundida, não é uma unanimidade como entre os espíritas.

Por fim, o exercício da mediunidade tomou forma diferente. Nos Estados Unidos, como os pastores e ministros religiosos sempre foram remunerados pelas congregações que atendem, foi um desdobramento natural que os médiuns cobrassem pelas sessões, apresentações e consultas.

No Espiritismo, por outro lado, os riscos da mediunidade paga para a credibilidade das comunicações, foram reconhecidos de pronto e a ela não é praticada.

As Origens Comuns.

O Espiritualismo Moderno começou em 1848 com os fenômenos de Hydesville. Quando as irmãs Fox estabeleceram um diálogo com o Espírito comunicante através das batidas, iniciou-se a era da comunicação ostensiva com o plano espiritual.

Estes não foram os primeiros fenômenos, outros haviam ocorrido antes, como entre os Shakers, uma comunidade religiosa. Mas, foram os que chamaram a atenção do grande público e desencadearam a sequência de eventos que levariam aos grupos de estudos, as sessões e apresentações públicas.

Ilustração mostrando experimentos com as mesas girantes em um salão parisiense. By Daniel Lange (magazine l’Illustration 1853) [Public domain], via Wikimedia Commons

Contribuiu o fato destes fenômenos serem praticamente contemporâneos da invenção do telégrafo (1837), dos primeiros jornais de massa, da expansão das estradas de ferro na América e da navegação a vapor.

Em pouco tempo, o número de médiuns cresceu bastante e chegou a Europa. Os fenômenos iniciais eram os de efeitos físicos e se popularizaram na forma das mesas girantes, que chamaram grande atenção nas cortes e salões elegantes durante vários anos.

Na França, as mesas girantes chamaram também a atenção do prof. Rivail, que começou um estudo aprofundado das manifestações mediúnicas e o publicou sob o pseudônimo de Allan Kardec (O Livro dos Espíritos – 1857). As palavras Espiritismo e Espírita foram utilizadas por ele para designar a nova Doutrina e os seus adeptos.

A Era de Ouro do Espiritualismo Moderno.

Nos Estados Unidos, o período imediatamente posterior a Guerra Civil Americana (1861-1865), foi de acelerada mudança e industrialização, o que rapidamente colocou o país em uma situação de destaque. Já em 1895, todos os indicadores econômicos apontavam os Estados Unidos como o país mais rico entre as nações industrializadas.

O movimento espiritualista não parou de crescer após a Guerra Civil, com cada vez mais adeptos, seus números chegaram, por algumas estimativas feitas por volta de 1867, aos 11 milhões de adeptos e simpatizantes. Algo expressivo em relação a população da época.

O auge do Espiritualismo Moderno ocorreu entre os anos 1880 e 1920. É uma fase de médiuns famosos, periódicos e publicações que chegam a um grande público.

É também a época de grandes polêmicas. A mediunidade paga, a popularidade do movimento, sua amplitude e sua falta de unidade, favoreceram o surgimento de médiuns falsos e de alguns médiuns interesseiros, que recorreram a truques para apresentações cada vez mais espetaculares.

Cartaz de uma das apresentações de Houdini contra os médiuns espiritualistas. (Fonte: Wikipedia Commons)

A imprensa explorou bastante as fraudes e deu grande destaque a pessoas como o famoso mágico Houdini (1874-1926), que se dedicaram a desmascarar imposturas. Houdini tomou a questão como uma cruzada pessoal contra o Espiritualismo.

Os fenômenos mediúnicos também se mostraram difíceis de reduzir a experimentos de laboratório. Este fato, aliado a dominância cada vez maior do paradigma materialista na comunidade científica, diminuiu o interesse dos cientistas pelo espiritualismo e determinou a forma como passou a ser abordado na grande mídia. Qualquer pessoa com renome que se declarasse publicamente espiritualista ou interessado no seu estudo passaria a ser ridicularizado.

A revista Scientific American é um termômetro desta mudança de humor. O último grande comitê organizado pela revista para estudar as manifestações físicas foi em 1924. Um de seus participantes foi Houdini e o médium que conseguisse demonstrar a realidade dos fenômenos receberia um prêmio.

A médium que participou dos experimentos da Scientific American foi Mina Crandon e, após uma série de reuniões entremeadas de acusações de fraudes e de testes estranhos, a revista decidiu pela não entrega do prêmio.

O Espiritualismo Moderno na atualidade.

Dos anos 20 até os nossos dias, o Moderno Espiritualismo passou por diversas fases, algumas com maior e outras de menor prosperidade.  Sua história é muito interessante e, até hoje, há grupos espiritualistas em todos os países de língua inglesa. Há uniões e igrejas estabelecidas com base nos princípios do Espiritualismo Moderno.

Entrada de Lily Dale. By Plazak. Fonte: Wikimedia Commons

A mediunidade continua a ser exercida, inclusive está presente em uma das localidades mais extraordinárias, Lily Dale, “a cidade que fala com os mortos”.  Começou na fase de ouro dos encontros espiritualistas, como um espaço para encontros e eventos, recebe visitantes o ano todo, com um grande número de médiuns realizando sessões e consultas.

Foi no Espiritualismo Moderno que Hollywood buscou a inspiração para sucessos de bilheteria como Ghost, O Sexto Sentido, Os Outros e não poucos dos seus filmes de terror, como Poltergeist.

A televisão americana também trata recorrentemente de temas espiritualistas. A premiada série de televisão Ghost Whisperer é um exemplo. Esta série tem como personagem principal uma médium que socorre espíritos perturbados e teve como consultor James Van Praagh.

James Van Praagh é um médium americano de grande projeção, participa de programas de TV, tem site e é autor de best sellers como “Conversando com os Espíritos”.

Possivelmente, ainda ocorrerá uma reaproximação natural entre espíritas e espiritualistas. Quando Chico Xavier e Waldo Vieira viajaram pela primeira vez pelos Estados Unidos (1965) foram bem recebidos pelos espiritualistas americanos e os grupos espíritas que surgiram neste país após as viagens de Divaldo Pereira Franco representam oportunidades de novos contatos.

Observações

  • A imagem que ilustra este artigo é um girassol. Esta flor é o simbolo do Espiritualismo Moderno.
  • O endereço site do Médium Jame Van Praagh é www.vanpraagh.com

Referências Bibliográficas

BRAUD, Ann. Radical Spirits – Spiritualism and Women´s Rights in Nineteenth-Century America. Bloomington, IN (USA): Indiana University Press, 2001. 2nd ed.

DESALVO, John. Andrew Jackson Davis – The First American Prophet and Clairoyant. Morrisville, North Carolina (USA): Lulu Press, Inc. (lulu.com), 2005.

DOYLE, Arthur Conan. The History Of Spiritualism. Teddington (USA): The Echo Library, 2006. . Edição em um volume, com o conteúdo completo do livro de Conan Doyle.

KARDEC, Allan. Coleção Completa das Obras de Allan Kardec. São Paulo, SP (Brasil): EDICEL, 1971. Inclui a coleção da Revista Espírita de 1858 até 1869. Não há indicação do ano da edição, mas, os livros da coleção forem impressos em 1971 na Gráfica Urupês.

LEONARD, Todd Jay. Talking to the Other Side: A History of Modern Spiritualism and Mediumship.Lincoln, NE (USA): iUniverse, 2005.

WANTUIL, Zêus; THIESEN, Francisco. Allan Kardec – Pesquisa Bibliográfica e Ensaios de Interpretação. Rio de Janeiro, RJ (Brasil): FEB, 1980. 7a Edição. Obra em 3 Volumes

WEISBERG, Barbara. Falando com os Mortos. Rio de Janeiro (Brasil): Agir, 2011. Tradução: Luciana Persice. Título Original: Talking to the Death, Kate and Maggie Fox and the rise of Spiritualism.

WICKER, Christine. Lily Dale – The Town that talks to the Dead. San Francisco (EUA): Harper Collins, 2004

WIKIPEDIA, Mina Crandon, https://en.wikipedi.org/w/index.php?title=Mina_Crandon&oldid=822873611 (last visited Mar. 3, 2018)

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